Klara Castanho diz que foi estuprada, engravidou e entregou criança para adoção; entenda o caso

Atriz divulgou carta aberta após ter situação íntima exposta; autoridades de saúde apuram vazamento Créditos: Metro World News Receba as not...

Atriz divulgou carta aberta após ter situação íntima exposta; autoridades de saúde apuram vazamento

Créditos: Metro World News

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A atriz Klara Castanho, de 21 anos, divulgou uma carta aberta na qual revelou ter sido vítima de um estupro. Por conta da violência, ela disse que engravidou e decidiu deixar a criança para adoção. O pronunciamento dela ocorreu depois que a história foi exposta na mídia, mesmo sem seu consentimento, e causou muita repercussão nas redes sociais (veja a carta completa no fim do texto). Autoridades de saúde informaram que vão apurar o vazamento do caso.

Atriz Klara Castanho revelou em carta aberta que foi vítima de estupro, engravidou e entregou criança para adoção legal (Reprodução/Instagram)

“Esse é o relato mais difícil da minha vida. Pensei que levaria essa dor e esse peso somente comigo. Sempre mantive a minha vida afetiva privada, assim, expô-la desse maneira é algo que me apavora e remexe dores profundas e recentes. No entanto, não posso silenciar ao ver pessoas conspirando e criando versões sobre uma violência repulsiva e de um trauma que sofri. Fui estuprada. Relembrar esse episódio traz uma sensação de morte, porque algo morreu em mim. Não estava na minha cidade, não estava perto da minha família nem dos meus amigos”, declarou Klara na carta.



A história começou com um post nas redes sociais pelo jornalista Matheus Baldi, no último dia 24 de maio, no qual ele contou que Klara deu à luz uma criança. A atriz pediu e ele acabou excluindo a publicação, mas a história acabou se espalhando.


Assim, na última quinta-feira (23), a apresentadora Antônia Fontenelle falou sobre o caso, sem citar nomes, durante uma live. Em tom agressivo, ela disse que uma atriz de 21 anos teria engravidado e entregue o bebê para adoção. Ela deu várias dicas, citando que a artista em questão já havia trabalhado na TV Globo e, atualmente, faz parte do elenco de uma série da Netflix. O caso logo repercutiu nas redes sociais e internautas passaram a especular o nome da atriz.

Foi então que Klara decidiu se pronunciar pela primeira vez sobre o assunto através de uma carta aberta publicada em sua rede social.

Depois disso, o colunista Léo Dias, do site Metrópoles, fez um texto falando sobre o caso. Após repercussões negativas sobre a divulgação da história, Lilian Tahan, diretora de redação do portal, retirou a matéria do ar e disse que “o site expôs de forma inaceitável os dados de uma mulher vítima de violência brutal.”

Pela lei brasileira, por ter sido estuprada, Klara teria direito a fazer um aborto legal. No entanto, a atriz relatou que preferiu fazer a entrega da criança para a adoção, devidamente assistida pela Justiça, o que é previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Vazamento da história no hospital

Na carta, Klara contou que logo após o nascimento do bebê, quando ela ainda estava anestesiada, uma enfermeira ameaçou contar a história para a imprensa. “A enfermeira que estava na sala de cirurgia fez perguntas e ameaçou ‘imagina se tal colunista descobre essa história’. Quando cheguei no quarto já havia mensagens do colunista”, contou ela.

Depois da repercussão do caso, a Rede D’Or, responsável pelo hospital em que a atriz foi atendida, informou que foi aberta uma sindicância para investigar a denúncia de Klara.

No texto, divulgado no domingo (26), a instituição diz que “tem como princípio preservar a privacidade de seus pacientes bem como o sigilo das informações do prontuário médico. O hospital se solidariza com a paciente e familiares e informa que abriu uma sindicância interna para a apuração desse fato.”

Em seguida, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) e o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) publicaram cartas abertas dizendo que vão apurar se houve vazamento de dados sigilosos da atriz.

Veja abaixo a íntegra da carta aberta de Klara Castanho:

“CARTA ABERTA Esse é o relato mais difícil da minha vida. Pensei que levaria essa dor e esse peso somente comigo. Sempre mantive a minha vida afetiva privada, assim, expô-la desse maneira é algo que me apavora e remexe dores profundas e recentes. No entanto, não posso silenciar ao ver pessoas conspirando e criando versões sobre uma violência repulsiva e de um trauma que sofri. Fui estuprada. Relembrar esse episódio traz uma sensação de morte, porque algo morreu em mim. Não estava na minha cidade, não estava perto da minha família nem dos meus amigos.

Estava completamente sozinha. Não, eu não fiz boletim de ocorrência. Tive muita vergonha, me senti culpada. Tive a ilusão de que se eu fingisse que isso não aconteceu, talvez eu esquecesse, superasse. Mas não foi o que aconteceu. As únicas coisas que tive forças para fazer foram: tomar a pílula do dia seguinte e fazer alguns exames. E tentei, na medida do possível e da minha frágil capacidade emocional, seguir adiante, me manter focada na minha família e no meu trabalho. Mas mesmo tentando levar uma vida normal, os danos da violência me acompanharam. Deixei de dormir, deixei de confiar nas pessoas, deixei uma sombra apoderar-se de mim.

Uma tristeza infinita que eu nunca tinha sentido antes. As redes sociais são uma ilusão e deixei lá a ilusão de que a vida estava ok enquanto eu estava despedaçada. Somente a minha família sabia o que tinha acontecido. Os fatos até aqui são suficientes para me machucar, mas eles não param por aqui. Meses depois, eu comecei a passar mal, ter mal-estar. Um médico sinalizou que poderia ser uma gastrite, uma hérnia estrangulada, um mioma. Fiz uma tomografia e, no meio dela, o exame foi interrompido às pressas.

E mesmo assim esse profissional me obrigou a ouvir o coração da criança, disse que 50% do DNA eram meus e que eu seria obrigada a amá-lo. Essa foi mais uma da série de violências que aconteceram comigo. Gostaria que tivesse parado por aí, mas, infelizmente, não foi isso o que aconteceu. Eu ainda estava tentando juntar os cacos quando tive que lidar com a informação de ter um bebê. Um bebê fruto de uma violência que me destruiu como mulher. Eu não tinha (e não tenho) condições emocionais de dar para essa criança o amor, o cuidado e tudo o que ela merece ter. Entre o momento que eu soube da gravidez e o parto se passaram poucos dias. Era demais para processar, para aceitar e tomei a atitude que eu considero mais digna e humana.

No dia em que a criança nasceu, eu, ainda anestesiada do pós-parto, fui abordada por uma enfermeira que estava na sala de cirurgia. Ela fez perguntas e ameaçou: ‘Imagina se tal colunista descobre essa história’. Eu estava dentro de um hospital, um lugar que era para supostamente para me acolher e proteger. Quando cheguei no quarto já havia mensagens do colunista, com todas as informações. Ele só não sabia do estupro. Eu ainda estava sob o efeito da anestesia. Eu não tive tempo de processar tudo aquilo que estava vivendo, de entender, tamanha era a dor que eu estava sentindo. Eu conversei com ele, expliquei tudo o que tinha me acontecido. Ele prometeu não publicar. Um outro colunista também me procurou dias depois querendo saber se eu estava grávida e eu falei com ele. Mas apenas o fato de eles saberem, mostra que os profissionais que deveriam ter me protegido em um momento de extrema dor vulnerabilidade, que têm a obrigação legal de respeitar o sigilo da entrega, não foram éticos, nem tiveram respeito por mim e nem pela criança.

Bom, agora, a notícia se tornou pública, e com ela vieram mil informações erradas e ilações mentirosas e cruéis. Vocês não têm noção da dor que eu sinto. Tudo o que fiz foi pensando em resguardar a vida e o futuro da criança. Cada passo está documentado e de acordo com a lei. A criança merece ser criada por uma família amorosa, devidamente habilitada à adoção, que não tenha as lembranças de um fato tão traumático. E ela não precisa saber que foi resultado de uma violência tão cruel. Como mulher, eu fui violentada primeiramente por um homem e, agora, sou reiteradamente violentada por tantas outras pessoas que me julgam. Ter que me pronunciar sobre um assunto tão íntimo e doloroso me faz ter que continuar vivendo essa angústia que carrego todos os dias.

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A verdade é dura, mas essa é a história real. Essa é a dor que me dilacera. No momento, eu estou amparada pela minha família e cuidando da minha saúde mental e física. Minha história se tornar pública não foi um desejo meu, mas espero que, ao menos, tudo o que me aconteceu sirva para que mulheres e meninas não se sintam culpadas ou envergonhadas pelas violências que elas sofrem. Entregar uma criança em adoção não é um crime, é um ato supremo de cuidado. Eu vou tentar me reconstruir, e conto com a compreensão de vocês para me ajudar a manter a privacidade que o momento exige. Com carinho, Klara Castanho.”

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